domingo, 15 de janeiro de 2012

Carnavalesco precisa ver a lua


Ouvi ontem esta história e acho que vale contá-la. Boa parte das pessoas talvez a considere apenas folclórica e certamente divertida. Acho, porém, que ela revela a profundidade dos sentimentos de um dos ícones mais importantes da História negra de Novo Hamburgo, Sebastião Flores, o eterno presidente da Escola de Samba Protegidos da Princesa Isabel, que nos deixou no ano passado, mas continua entre nós.

O fato ocorreu há alguns anos. Sempre bem relacionado com os poderes públicos, Sebastião conseguiu que a Prefeitura construísse uma cobertura para a quadra, a mesma que hoje nos abriga nos ensaios em dias de chuva. O então secretário de Obras propôs uma estrutura que cobrisse toda a quadra, mas Sebastião recusou. Queria só uma parte. O secretário não conseguia entender...

Sebastião explicou:

- Em dias de chuva, um pouco de cobertura resolve o problema... Mas em noites abertas, o povo precisa ver as estrelas e a lua...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ABYA YALA, o verdadeiro nome da América


Li, no site do Homem Arara (*) e compartilho:

Descobri! O verdadeiro nome da América é este: ABYA YALA. Quem me contou foi a Elaine Tavares, jornalista e professora universitária na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.

Pra contar a verdadeira história deste continente, o nome "América" só pode ser usado como evidência da sacanagem. É um nome inventado pelos invasores, em homenagem ao navegador Américo Vespúcio. Este não foi sequer o "descobridor", mas "mereceu" a homenagem por ter contornado o extremo sul do continente, passando do Oceano Atlântico ao Pacífico, e desenhado o primeiro mapa das novas terras. O Cristóvão Colombo, que tinha feito o serviço de "descobrir a América", estava velho, aposentado. Portanto, não prestava pra mais nada e podia ser descartado.

De certa forma, o Colombo mereceu a sacanagem. Afinal, ele achava que tinha descoberto o caminho para as Índias e aí chamou os povos do novo continente de "índios". Ninguém perguntou aos "índios" se eles queriam ser chamados assim, ou se preferiam ser chamados pelos nomes que eles mesmos se deram. Também nunca perguntaram a eles qual era o nome da sua terra.

É como se chamassem o Charles do Liberdade de "Carlinhos da Senzala" e ainda registrassem este nome no cartório.

Os povos do continente, porém, mesmo depois de cinco séculos de truculência, continuam de pé e agora se organizam (em nível continental, do Alaska à Patagônia). Tem consciência inclusive de que chamar a sua terra pelo nome certo é uma forma de afirmar sua existência e sua cultura. De respeitarem-se e se fazerem respeitar. O movimento indígena, organizado em todo o continente, decidiu usar essa expressão bonita, "ABYA YALA", da lingua kuna (povo do Panamá, ponto de união entre o sul e o norte do continente) para designar sua (nossa) terra. Significa "terra do esplendor"!

Sobre o trabalho da Elaine, vejam também, além do blog http://eteia.blogspot.com, o endereço http://povosoriginarios.blogspot.com . Copio uma parte da apresentação, só pra atiçar sua curiosidade:

"O projeto tem como objetivo investigar a história das nacionalidades originárias da América pré-colombiana e revelar os seus mais diferentes aspectos da vida, da cosmologia e da cultura, buscando compreender o quê destas práticas e conceitos ainda perdura de forma estrutural na maneira de organizar a vida dos povos autóctones. Este estudo se faz necessário considerando o atual fortalecimento das lutas dos povos originários no que diz respeito não só ao território, mas também no direito a expressar e vivenciar suas culturas. Isso aparece com força na Bolívia, na Colômbia, no Equador, no Chile, na Argentina e já começa a surgir no Brasil.

A proposta é, a partir da pesquisa, produzir material didático para uso de professores de primeiro e segundo graus. A intenção é de que o resultado da pesquisa acerca destas civilizações tão antigas (ou mais) do que as já conhecidas civilizações egípcia ou grega possa ser incorporado nos currículos desta fase do ensino para, com elas, provocar: o conhecimento da história antiga do continente, o rompimento com identidade colonial, o fim do racismo, o fim do isolamento do Brasil em relação aos países da América Latina, a construção de um conceito de identidade latino-americana, o reconhecimento das novas lutas dos povos originários e a caminhada no rumo de uma outra integração e outro tipo de desenvolvimento nesta Abya Yala."

(*) www.homemarara.com

sábado, 12 de novembro de 2011

DIVERSIDADE NA ESCOLA – UMA EXPERIÊNCIA


Quando comecei meu trabalho como assessora sobre a questão da diversidade étnica e cultural na Secretaria da Educação, em Novo Hamburgo, há quase três anos, tinha muitos sonhos. O que conquistamos neste período, porém, é mais gratificante do que os próprios sonhos. Vejo, hoje, em quase todas as escolas do município – uma cidade originada pela imigração alemã – a diversidade étnica e cultural sendo trabalhada com muita seriedade e, ao mesmo tempo, muito carinho.

Certamente, temos muito ainda a avançar e conquistar, mas não posso deixar de registrar que a caminhada já me gratificou mais do que poderia esperar. Sou profundamente agradecida às muitas pessoas – professora(e)s e funcionária(o)s das nossas escolas, que me acompanharam, apoiaram, ajudaram, buscaram meu apoio, aprenderam comigo e me ensinaram, exatamente como sugere Paulo Freire.
Sou profundamente agradecida, por exemplo, pela oportunidade de proporcionar o curso da UFRGS sobre o ensino da História e da Cultura da África e dos Afro-descendentes, que municiou nossa equipe com informações preciosas, além de inspirar nosso trabalho. Agradecida também pela oportunidade de conhecer inúmeras pessoas generosas, sensíveis e inteligentes que se dedicam à educação como verdadeiras militantes da justiça, da democracia, da igualdade, da fraternidade e da paz.
Confesso que me sinto orgulhosa por todo o caminho percorrido, mas sem deixar de reconhecer que fui apenas uma das agentes de todo o crescimento que estamos promovendo, não só em Novo Hamburgo, mas em todo o país. Com este espírito, gostaria de compartilhar alguns pontos que julgo essenciais ao sucesso do trabalho realizado.
1) Buscar a vivência profunda dos conteúdos a serem trabalhados. Desde o primeiro dia, além de buscar a informação acadêmica, procurei também beber na fonte da tradição oral, sabendo que este tem sido o principal veículo de transmissão de história e da cultura afro-brasileira. Da mesma forma, me aproximei da religião afro-brasileira, para entendê-la e superar preconceitos uma vez que, apesar de negra, minha formação religiosa era apenas católica. Sou especialmente grata à Mãe Maria de Ossanha, uma senhora muito simples, mas integralmente dedicada à religião, que me tem revelado um universo riquíssimo de simbolismo e sabedoria.
2) Vencer as barreiras do contra-preconceito. O racismo é uma doença traiçoeira, porque sua irracionalidade se reproduz também entre os que são vítimas do preconceito. Busquei desarmar o espírito para poder dialogar com todas as professoras e professores – a maioria brancas – sobre a questão étnica, procurando entender sua visão sobre este tema tão delicado. Alguns dos trabalhos mais bonitos, e proveitosos sobre a igualdade e a diferença estão sendo desenvolvidas por pessoas de pele branca sinceramente comprometidas com a superação dos preconceitos.
3) Valorizar todos os aspectos da cultura afro-brasileira que são aceitos pelo conjunto da sociedade. Falo aqui de música, de ritmo, de dança, culinária, roupas coloridas....
4) Compreender que a visão cultural eurocêntrica não deve ser substituída por um conceito centrado na África. Desde o início, me preocupei também em entender a questão indígena e descobri que a História do negro não pode ser separada da História do índio, nem do branco, em nosso país.
5) Evitar a prisão do ranço histórico e do coitadismo. Descobri, com muita alegria, que a História do Negro no Brasil é muito mais a História da Resistência, da Luta pela Liberdade, do que a História da Escravidão. E é neste campo positivo em que podemos nos encontrar, todas as raças, como seres humanos iguais. Muito mais do que nos reduzir a uma eterna queixa contra a opressão (embora isto não deva ser esquecido, por se tratar de uma parte da verdade), estamos ensinando valores e contribuições importante que negros e indígenas trouxeram e trazem ao nosso desenvolvimento como nação.
6) Ter as crianças como foco principal do nosso trabalho e o amor como principal motivação. Se estamos trabalhando com crianças, estamos trabalhando para o futuro e não para o passado. Do passado, podemos extrair as lições, mas a inspiração nos vem do futuro, de um mundo que temos a construir. E este mundo, não queremos feito de rancores, mas de amor, compreensão e superação.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O NEGRO GAÚCHO, NA CLAREIRA DA MATA

Em Caçapava do Sul, cidade onde nasci e vivi por 16 anos, há um Centro de Tradições Gaúchas com o nome de CTG Clareira da Mata. É o CTG dos negros. Lá participei do grupo de danças, usei vestido de prenda e sonhei meus primeiros sonhos de menina adolescente. 
 
Pode soar estranho, hoje, falar em CTG dos negros. No entanto, há até bem pouco tempo, isto era normal. Em muitas cidades gaúchas – não só em Caçapava – os negros não entravam nos CTG’s dos brancos. Nem por isto, eram menos gaúchos ou amavam menos a cultura da nossa terra. Pelo contrário, eram – e são – tão apaixonados pela tradição gaúcha que criavam suas próprias entidades. 

Hoje, superados os tempos do racismo ostensivo graças à luta do povo negro e à evolução cultural de toda a sociedade, o CTG Clareira da Mata continua existindo e se afirmando como o CTG dos negros, mas, agora como herança histórica que merece ser cultivada; como patrimônio de um povo que soube lutar contra a opressão para buscar não a vingança, mas a harmonia.

Tenho muita certeza ao escrever estas palavras, porque sou testemunha destes fatos. Meu saudoso pai, “seu Sinhô” – personagem real do livro “Quatro Negros”, de Luís Augusto Fischer, foi um pioneiro da luta contra o racismo, e o fez como bom gaúcho. 

Desde quando eu era menina e vivia na Varzinha, no interior do Caçapava, a uns 30 quilômetros da cidade, nas terras onde meu pai e minha mãe criaram nove filhos, lembro dos bailes de ramada que meu pai promovia. Bailes de ramada eram festas que aconteciam num salão rústico, de chão batido, coberto de palha e iluminado por lampiões. Para animar a festa, meu pai chamava um bom gaiteiro, às vezes acompanhado por um bom tocador de violão. O povo vinha de longe, no lombo dos cavalos ou em carros de bois... Às vezes era uma verdadeira viagem, de até seis horas de ida e mais seis de volta. Por isto, os bailes tinham que durar a noite inteira. 

“Sequer um negro poderia pensar
em dançar com uma negra
num baile de brancos”

Também por isto, eram acontecimentos raros. Eram esperados com ansiedade e sempre muito concorridos. Além do povo que vinha de longe, é claro, aparecia toda a vizinhança. Inclusive os vizinhos brancos, que não resistiam à música e à animação da festa. Isto era comum. Também os negros se aproximavam das festas dos brancos. O costume, porém, era de que, nos bailes dos brancos, os negros ficavam de fora, apenas olhando a festa pela janela. Quando era promovido por negros, os brancos ficavam de fora.

Meu pai foi um dos pioneiros em acabar com estas barreiras. Nos bailes que ele promovia, os brancos eram convidados a entrar, mas negros e brancos dançarem no mesmo espaço já era “liberalismo” demais. No entanto, “seu Sinhô” sempre pedia, em determinados momentos, que os negros sentassem para deixar os “irmãos brancos” dançarem. 

E eles adoravam. Naquele tempo, como hoje, os negros tinham um balanço especial em suas músicas. Vale um parênteses aqui, para provocar uma reflexão sobre o quanto existe de negritude na música gaúcha, cheia de contratempos nas notas da gaita, que fazem a delícia de qualquer ouvido que goste de riqueza rítmica.

O significado destes fatos é muito mais profundo do que se percebe ao primeiro olhar. O fato de brancos se aproximarem de uma festa negra (e vice versa) revela a presença de uma integração cultural, construída sobre a arte gaúcha, e a possibilidade de relacionamentos de amizade entre pessoas de “raças” diferentes. Por outro lado, a regra de negros e brancos não dançarem no mesmo espaço tem uma carga simbólica terrível de separação e segregação raciais. Sequer um negro poderia pensar em dançar com uma negra num baile de brancos. Imagine como estava distante a possibilidade de dançar com uma branca, ou de dançarem um branco e uma negra. Lembre que, desde então, se passaram apenas três décadas. 

Nos CTG’s de raiz negra,
a relação mais importante
é a familiar.

Assim, para que os negros pudessem cantar e dançar, criaram seus próprios bailes e seus próprios CTG’s. É evidente que a cultura que se desenvolveu nestes centros tem suas características particulares, em muitos pontos diferente da cultura gaúcha dos brancos, mas se relacionando com ela, influenciando e sendo influenciada. Um relacionamento, ao mesmo tempo, de diálgo e conflito. 

Gostaria de frisar que as particularidades culturais do negro gaúcho não se encontram apenas nas artes – especialmente, no jeito de dançar, cheio de ginga e sensualidade, aproveitando toda a riqueza rítmica da música gaúcha. Também é muito particular, na comparação com a cultura gaúcha branca, a valorização da família. Nos CTG’s de raiz branca, a relação mais importante é a de poder. Pergunta-se quem é o patrão e a importância de cada pessoa se mede principalmente pela quantidade de cabeças de gado e pela extensão das terras que possui. Ou para quem trabalha. Nos CTG’s de raiz negra, a relação mais importante é a familiar. Pergunta-se de quem cada pessoa é filha, prima ou de quem é compadre ou comadre. 

O próprio nome do CTG onde aprendi a dançar, “Clareira da Mata” é um indicativo desta particularidade cultural do gaúcho negro. Ao invés de identificar uma propriedade privada – “estância, rancho, recanto” – se refere a um local coletivo e selvagem, um ponto de reunião de pessoas que vivem em contato íntimo com a natureza. Permite vislumbrar, ainda, a forte proximidade entre negros e índios em nossa raiz histórica, reforçando nossa tese, de que a miscigenção mais importante ocorrida em nossas terras foi a do negro com o índio, não a do branco com negros ou a do branco com os índios, como se costuma acreditar.

Sáo pontos que merecem mais atenção por parte de nossos pesquisadores históricos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

AMOR, CULTURA E DIVERSIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL


Adoro brincar com a orelhinha do meu netinho emprestado. Adoro o abraço apertado e generoso da minha netinha. Adoro nossas crianças.

Este amor que eu sinto, assim como a grande maioria da(o)s educadora(e)s sentem, é a base do nosso trabalho. Devemos compreender, no entanto, que também o nosso amor é educado, ou seja, se manifesta através de gestos e expressões construídos culturalmente. Até mesmo o abraço, por mais sincero, é uma manifestação de cultura. Existem povos que se abraçam mais que outros e isto é uma realidade muito fácil de perceber numa cidade como a nossa Novo Hamburgo, onde convivem pessoas das mais diferentes etnias e culturas.

Como exemplo, cito um trecho do livro “E a Umbanda”, do pastor luterano André Droogers, obra densa e respeitosa. O abraço que as entidades oferecem aos filhos chamou fortemente a atenção do religioso. Lendo o trecho em que falava isto, recordei o abraço de Oxumaré, de uma ternura imensa, a cada pessoa numa terreira. É um abraço completo, de rosto colado, afagos maternais e mãos apertando docemente, corpo contra corpo. E, além disto, dançando. Quanta diferença do abraço apenas formal que se pratica em algumas das religiões de origem européia. O pastor, homem sensível e imbuído de autêntica fé cristã, de amor ao próximo e abertura para o outro, não podia deixar de perceber esta característica tão viva e tão contrastante.

Faço esta referência não para estabelecer um juízo de valor, o que seria simplista demais. Meu objetivo é demonstrar como se podem notar profundas diferenças culturais mesmo num gesto tão simples como o abraço. A partir desta observação, podemos enfatizar a necessidade de prestarmos compenetrada atenção às referências culturais dos nossos alunos – e também às nossas. Como temos múltiplas culturas – e miscigenações culturais – é um dever de amor para com as crianças procurar entender a diversidade que cada professor(a) tem em sua sala de aula. E alimentar a consciência de que estas diferenças se manifestam em pequenas coisas do dia a dia, como um simples abraço.

A escola é um lugar onde se encontram todas estas múltiplas culturas, com todo seu potencial de encontros e desencontros, conflitos e miscigenações. Ainda mais séria se torna esta questão quando temos presente que a escola tem justamente a função social de formação cultural. Mas não age sozinha e disputa sua hegemonia nesta função. Por um lado, estabelece disputa com uma poderosa estrutura de mídia, que explora a cultura como um bem comercial. Por outro lado, disputa com a família, com seus valores e hábitos enraizados. A família, por sua vez, também disputa a formação de suas crianças, com a mídia e com o entorno social onde vive seu cotidiano.

A educadora/o educador não age sozinh(o)a. Interage dentro de uma rede muito complexa de influências. Além disto, oferece às crianças não só os conteúdos oficiais, definidos no currículo e no plano político pedagógico, mas também suas própria crenças e valores pessoais, dos quais não tem como se desvestir completamente ao entrar numa sala de aula.

Resta claro que educar é transmitir valores e crenças, não apenas conhecimento, desde o primeiro momento em que a criança chega à escola. Pode-se fazer isto de forma inconsciente, reproduzindo uma cultura muitas vezes arcaica, preconceituosa e opressora. A outra alternativa é educar de forma crítica e consciente, questionando os próprios valores, compreendendo os valores das várias culturas que convivem na escola. E escolhendo. Conscientemente, escolhendo. Assumindo a responsabilidade de escolher.

Não é fácil fazer isto, porque exige uma avaliação crítica de cada um de nossos gestos. Cada um deles pode fazer com que uma criança se sinta inferior, igual ou superior às outras na sala de aula. É preciso muita humildade para assumir todo o enorme peso da responsabilidade que estas escolhas representam para a vida inteira de cada uma das crianças que educamos. E esta humildade só é produzida pelo amor.

Este mesmo amor que me faz brincar com a orelhinha do meu netinho emprestado e me faz feliz com o simples abraço apertado da minha netinha.

domingo, 28 de agosto de 2011

O ENCANTO DA PROFESSORA LAIR ENSINANDO A ENSINAR CULTURA E HISTÓRIA DO NEGRO NA ESCOLA INFANTIL


A manhã da última sexta-feira (26/08/2011) foi encantada para as professoras da Educação Infantil e séries iniciais da rede pública municpal de Novo Hamburgo. Das 8h00 às 11h30, no auditório da SMED, elas tiveram a oportunidade de ouvir a professora Lair Teresa Vidal da Silva. Com um sotaque característico da Pampa gaúcha, que deu colorido especial a sua palestra, ela cantou, dançou, recitou, lembrou ditados populares, mostrou como se fazem benzeduras, tudo para mostrar como é possível ensinar as crianças, desde seu ingresso no mundo da escola, a valorizarem, respeitarem e conhecerem sua herança cultural afro-brasileira-gaúcha. Foram três horas e meia que se passaram num instante, como mágica, e mesmo assim deixaram raízes profundas e uma grande inspiração para o nosso trabalho.

Licenciada em letras, com especialização em Ensino Religioso, a professora Lair é militante do Movimento Negro desde 1987 e desenvolveu uma experiência única no ensino da diversidade nas séries iniciais, usando jogos e brincadeiras infantis da tradição afro-brasileira para introduzir as crianças no universo de belezas da cultura e da História dos negros em nosso país. A riqueza dos resultados que alcançou fez com que este trabalho fosse reconhecido e passou, assim, a assessorar a rede educacional de Cachoeira do Sul, onde vive e trabalho, com palestras e oficinas na Área de Cultura Afro. Hoje aposentada, passou a ser requisitada para compartilhar seu conhecimento em vários outros municípios do Estado. Atualmente, além de toda esta atividade, participa também do Coletivo Estadual de Educadores Negros.

Já tivemos a oportunidade de ouvi-la, no ano passado, em palestra que integrou o curso realizado em parceria com a UFRGS sobre a História e a Cultura Afro-brasileira. Este ano, porém, ela veio falar especialmente para professoras da Educação Infantil e seres iniciais, trazendo-nos a palestra “Desvendando o Lúdico na Africanidade”. O mais estimulante em suas proposições é que ela mostrou como é possível utilizar este tema para trabalhar a motricidade, a questão dos limites, geografia e até matemática. E tudo isto trazendo uma visão aguda da História dos negros no Brasil e no Rio Grande do Sul. Para culminar, ela nos trouxe também uma lição de amor e dedicação às causas sociais, frisando que foi nas escolas da periferia em que encontrou maior receptividade e carinho para seu trabalho, mostrando profunda gratidão às crianças mais pobres que aprenderam com ela, mas também lhe ensinaram muito.

Leira Salete Teixeira de Souza

Assessora da Diversidade